domingo, 8 de abril de 2012

Folha em Branco

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

A folha em branco é desafiadora. A vontade de escrever parece latente, quase um litro de café já se foi, e a casa está harmoniosa... Tudo perfeito... Mas onde diabos está aquilo que devia estar no papel?

A folha sobre a mesa. Eu olhando pra ela enquanto giro o lápis pelos dedos. E nada. Uma consulta pode ser um bom caminho: bloquinhos de anotações, jornais, livros, wikipedia, filmes, aforismos, algo inspirador... Mesmo assim, mais vazia que a folha parece minha cabeça, que teima em não ter ideias. Quando enfim parece estar surgindo, o barulho da geladeira, ou uma simples formiga que trafega sobre a folha parecem suficientes para repelir qualquer indício de inspiração.

Olho pra folha em branco e me sinto herege. Tantas pessoas morreram por aí para que eu tivesse direito a esse momento, de escrever sem medo de ser preso. De publicar algo sem justificativa e revisão de superiores. E eu aqui, entre titubeios e distrações. Vai ver essa folha em branco é mesmo como a democracia, onde se é livre, mas não se sabe bem o que fazer com aquilo.

O primeiro parágrafo é o mais difícil, mas sem ele nada acontece. Algumas vezes custa a sair, mas quando é parido, o texto todo engrena com relativa fluência. Em outras, no entanto, ele até aparece rápido, mas mais pra frente fica fácil perceber que ele influenciou tudo o que veio depois a ser ruim como ele.

O melhor então é aproveitar o fio da mínima meada e ir escrevendo tudo, quase um fluxo de consciência, sem se importar com erros gramaticais ou palavras repetidas. Depois teremos tempo para isso. E só assim, conseguimos descobrir que o fio, antes pequeno, pode estar ocultando um novelo de ideias. Como é bom destrinchar esse novelo, ainda que desordenadamente. E pouco a pouco surge um texto em crochê.

Agora sim, é hora de maquiá-lo. Algumas correções cá ou lá. “Será que esse acento está de acordo com a nova regra ortográfica?” Mudar parágrafos de lugar também é mais corriqueiro do que se imagina. “Esse segundo parágrafo podia ser o quarto, também preciso extrair uma parte do terceiro parágrafo para fazer um enxerto no quinto”. Outra parte importante é trocar palavras que entravam a fruição, dar alguma poética ou pelo menos tornar a leitura mais agradável. “Hum... ‘É hora de ir’ fica melhor do que ‘vou-me já’, certamente”. Só mais alguns detalhes e... Pronto, lapidado!

Depois do fluxo de ideias e da maquiagem, é impossível publicá-lo sem mais uma revisão minuciosa de conteúdo. Dar uma olhada no argumento, conferir se as ideias têm nexo e se aquilo realmente expressa minimamente o que você acredita. Parece simples, mas é tão difícil como o começo, sempre tem um senão pra incomodar. “Será que se meu chefe ler ele vai brigar comigo?”, “Será que o Drummond salvaria alguma frase daqui?”, “Será que eu posso dizer ‘tribos’ ou soa evolucionista?”, “Será que está claro que foi uma ironia?”, “Será que vou me envergonhar quando ler isso aqui, daqui um ano?”. O drama é tão grande que João Cabral mesmo dizia que, depois de escrito, gostava de deixar um poema na gaveta por meses, para lê-lo de novo e só então decidir se queria mesmo ser autor daquilo. Em tempos de blog, fica difícil.

Mas enfim, a folha está preenchida, e até o corpo parece aliviado por colocar pra fora aquilo tudo. Há poetas que dizem que a poesia de algum modo já existe em algum lugar, e cabe ao escritor apenas encontrar a combinação de palavras que estão escondidas. Uma teoria um tanto quanto espiritualista, é verdade. Mas, de fato, na hora de escrever tem algo que deve sair, que precisa ser escrito. Fazer da fagulha um incêndio. Não fosse essa sensação, seria fácil desistir na primeira formiga, no primeiro barulho.

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