segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Superstição Corinthiana

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário


Armando Nogueira, um dos maiores cronistas esportivos de nosso país, vez ou outra evocava Neném Prancha, a quem chamava de “filósofo do futebol”. Era uma ironia. Neném foi roupeiro, massagista, olheiro e até técnico, conhecido por divertir a todos com suas frases sobre o futebol.

A ele é atribuído o aforismo “se macumba ganhasse o jogo, campeonato baiano terminaria empatado”. Soaria mal para os ouvidos de um intelectual, mas de fato, sempre penso nessa frase quando me vejo fazendo algo absurdo pelo futebol.

Em 2009, corinthiano que sou, prometi que assistiria a todos os jogos da Copa do Brasil na televisãozinha chuviscada de meu quarto. Talvez seja parte de uma formação cristã que tive, mas tenho a impressão que sacrifícios são sempre bem vistos pelo acaso. Não deu outra, Corinthians campeão.

Para 2010 era só seguir a regra e finalmente venceríamos a Libertadores da América. Estava tudo dando certo, até que fui chamado para uma entrevista de emprego em São Paulo no mesmo dia das oitavas de final, o fatídico Corinthians x Flamengo. Fui, meio que a contra gosto, mais nervoso pelo jogo do que pela entrevista, e acabei cometendo a heresia de assistir ao jogo na televisão de meu pai.  Tenho pra mim até hoje que se estivesse na minha televisãozinha, aquela falta que o Chicão bateu no último minuto teria entrado. Bom, pelo menos veio o emprego. Guardei a culpa de ter trocado o Corinthians pelo trabalho.

Em 2012, empregado, com uma televisão mais nítida, seria mais fácil cumprir minha superstição. E isso é um problema. Tevê com sinal digital, estava muito fácil, não seria suficiente para o destino nos dar a inédita Libertadores. Lasquei logo mais duas promessas: de que rasparia o cabelo e de que daria uma camiseta oficial do Corinthians pro Zulu, um conhecido andarilho que passa muitas vezes pela Praça Rui Barbosa, em Campinas. Zulu é corinthiano roxo.

No meio do caminho, a tentação. Jogo contra o Santos e sou chamado para um serviço externo. Parados no quarto do hotel em Serra Negra, um de frente pro outro, eu e uma televisão HD de 42 polegadas. A vontade de ligá-la era inenarrável, mas fui bravo e fui ouvindo apenas no radinho enquanto olhava com pensamentos profanos para o controle remoto, intocável até o fim da partida. Minha namorada, palmeirense, tentava me corromper: “Mas nem os melhores momentos?”. Nada me tira que ajudei o Emerson a acertar aquele chutaço no ângulo. Logo depois da final, lá estava eu, careca.

Ontem, véspera da final do mundial de clubes, ainda não havia dado ao Zulu sua camisa. Como o destino gosta de testar, uma tempestade caía. Com medo de descumprir a promessa e arruinar o mundial corinthiano, fui à praça, comércio já fechado, onde estaria meu colega? Sob a marquise do Itaú, um grupo de moradores de rua se espremia para não tomar chuva, e se assustaram quando cheguei. Quando disse que procurava Zulu para dar uma camiseta do Corinthians, vi sorrisos e a informação de que ele “morava” na Renner. E finalmente, lá, com mais alguns amigos, estava ele. Cumpri minha promessa, e o deixei após um abraço sincero.

O Corinthians foi campeão do mundo. Talvez pela minha televisão chuviscada, talvez pelo meu radinho, talvez pela minha careca, talvez pelo Zulu, talvez pela posição que sentei no sofá, pela emissora que escolhi. Ao ler toda essa história, Neném Prancha talvez zombaria de mim, como se o jogo fosse simplesmente resultado do embate entre os que se enfrentam. Tanto faz, afinal, o que é a vida senão a disputa entre o “era pra ser assim” e o “não faz sentido”? Vi alguns tagarelas de redes sociais dizendo que o brasileiro leva 25.000 pro Japão e não consegue colocar 1.000 pra protestar contra a corrupção na Avenida Paulista. Chatos de galocha, não entendem que o futebol em nosso país, longe de ser a alienação do povo, é a manifestação popular que representa a beleza e a tragédia da vida. E nisso, eu e Neném provavelmente concordaríamos.

1 palpites:

vai ver está faltando fazer uma mandinga pra passeata contra a corrupção dar certo!rs
Fica aqui registrada a promessa! Se acabar o capitalismo eu também raspo a cabeça! vai que....

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